A nossa primeira leitura conjunta incidiu sobre uma das obras de Isabel Allende - A Casa dos Espíritos. Espero que esta seja a primeira de várias leituras que possamos realizar, aqui no blogue, em conjunto com os nossos visitantes!



Sinopse
Nesta sua surpreendente obra de estreia, Isabel Allende constrói um universo repleto de espíritos, de personagens multifacetadas e humanas, entre elas Esteban Trueba, o patriarca, que vive obcecado pela terra e pela paixão absoluta pela esposa, que ele sente sempre para lá do seu alcance.

Clara é a matriarca esquiva e misteriosa, dotada de poderes sobrenaturais, que prediz as tragédias da família e estabelece o destino da casa e dos Trueba. Blanca, a sua filha suave e rebelde, nutre um amor pelo filho do capataz do seu pai, o que provoca o desprezo de Esteban, mesmo quando deste amor nasce a neta que ele adora: Alba, uma beleza luminosa e uma mulher ardente e voluntariosa.


As paixões da familia Trueba, as suas lutas e segredos desenvolvem-se ao longo de três gerações e de um século de violentas mudanças. Num contexto de revolução e contrarrevolução, a autora dá vida a uma família unida por laços de amor e ódio mais complexos e duradouros que as lealdades políticas que a poderiam separar.


Isabel Allende, nasceu a 2 de Agosto de 1942. Em 1973 foi forçada a abandonar o Chile na sequência do golpe militar em que Salvador Allende, primo do seu pai, foi assassinado ou levado ao suicídio.
Trabalhou como jornalista no Chile e, posteriormente, em Caracas (Venezuela), onde viveu até 1984. Depois disso, passou a viver nos EUA, onde ensina literatura. Foi uma defensora acérrima dos direitos das mulheres.
Segundo Isabel Allende, a sua experiência como jornalista foi-lhe útil na medida em que não só a ensinou a usar a linguagem de forma eficaz mas também a fez adquirir uma facilidade de comunicação que a ajuda a aproximar-se de qualquer pessoa com uma história a contar. Para ela, o primeiro objectivo da literatura é a expansão da consciência da realidade através da narração de histórias particulares capazes de se entrelaçarem na história colectiva e explorarem os mistérios da vida: a sua realidade marcada pelo sonho, pelas premonições e pelas visões.

Os seus livros estão traduzidos em mais de 30 idiomas e constituem um caso ímpar de sucesso. Muitos deles já foram adaptados ao cinema, teatro, ópera e ballet, conferindo-lhe uma brilhante trajectória literária que com os anos não deixou de aumentar o seu prestígio. *

*informação retirada da Wook


Comentário - Paula Teixeira

Esta é a história de um país – o de Allende – apresentado aos leitores através da acção de várias personagens pertencentes à família Trueba.
Clara, Alba e Blanca são as três mulheres Trueba que se movimentam de forma a dar corpo a uma narrativa que nos mostra o Chile em várias etapas da História do sec XX.
Num país onde a liberdade do homem é oprimida e a das mulheres mais ainda, Clara é um pilar que luta pelas injustiças sociais influenciando a filha e a neta.
Esteban Trueba, um homem de convicções fortes – mesmo não sendo as mais acertadas – vai sofrer uma transformação ao longo da história e por conseguinte, ao longo dos anos, mostrando-nos o seu amor incondicional pela Pátria que é no fundo o que ele mais respeita!
Durante toda a obra, os espíritos deambulam pela narrativa dando um toque de magia à história, ajudando os personagens a encontrar o seu rumo.
Esta é sem dúvida uma narrativa cujo objectivo é a crítica social ao Chile do sec XX e a todas as mudanças a que esteve sujeito.
A Casa dos Espíritos, foi o primeiro livro que li de Isabel Allende, não foi uma leitura que me envolvesse, pois achei-a demasiado informativa. O leitor não necessita de ficar na expectativa para saber o que vai acontecer ao longo das páginas, pois tudo é dado a priori!


Comentário - Vasco Ricardo

Como sucede com imensos autores sul-americanos, Isabel Allende utiliza um número limitado de personagens para explanar a sua visão e o seu sentimento acerca da sociedade chilena. Uma sociedade com algumas particularidades, assim como qualquer outra, as quais a autora vai invocando ao longo do texto.
A escrita revela-se, como seria de esperar, de grande qualidade. Toda a narrativa é bastante sólida e descritiva. Não existe, em todo o seu enredo, uma ponta solta ou algo que eu tivesse sentido que faltava. E talvez por isso o livro não me tivesse agradado da mesma forma que o fez com tantos outros leitores. O meu gosto literário exige que eu sonhe quando percorro as páginas, que prolongue as ideias do autor e as torne como minhas, que viaje naquilo que fica por dizer. Isto não foi possível neste livro porque Isabel Allende faz questão de mostrar uma realidade sem que essa fosse distorcida, o que é uma opção que certamente preencherá a avidez de muitos leitores, mas não a minha.
Não obstante, ficam bem vincadas as transformações que ocorreram no país durante o século passado, tornando-se 'A Casa dos Espíritos' interessante para quem as quiser conhecer.

11 comentários:

    Este é um daqueles livros para o qual as palavras são poucas para o comentar. Isabel Allende tem uma escrita irrepreensível, e consegue colocar a vida de gerações e a história política de um país (o Chile) em pouco mais de 350 páginas.
    É um livro denso, com uma narrativa intensa que nos deixa conhecer um pouco mais a história do país que viveu um golpe de estado e uma ditadura por 17 anos. A descrição desta fase é tão brilhante como chocante.
    Em "A Casa dos Espíritos" assistimos ao desenrolar da vida da familia de Esteban Trueba, os seus amores e desamores, as suas mulheres, os seus filhos e a sua neta. A história é-nos contada parcialmente pela sua voz e pela voz da sua neta, que decide escrever as memórias de uma familia rica em acontecimentos e sofrimentos e também para exorcizar os seus próprios medos e pesadelos.
    Clara é a filha esotérica que vive no seu mundo. A sua irmã Rosa, é bela e tem como apaixonado, Esteban. Mas quis o destino que Rosa morresse jovem e que Esteban viesse a casar com Clara. Apesar de amar Clara, Esteban não consegue esconder a sua natureza rude e agressiva e, após terem em comum 3 filhos, Blanca e os gémeos Nicolau e Jaime, Clara decide abandonar Les Tres Marias (a propriedade rural da familia) e viver na casa da esquina na cidade. Esteban dedica-se então à política e chega a senador, mas o golpe de estado derruba-o e perde a propriedade na reforma agrária.
    Blanca apaixona-se e engravida de Pedro Tercero, o homem que Esteban expulsou de Les Tres Marias por ter uma ideologia comunista. Desta gravidez nasce Alba, a menina que viria a ser a companhia final de Esteban.
    E muitas mais histórias se cruzam nestas páginas.
    É um livro repleto de história, de magia, de espíritos, de tristezas e alegrias, de amarguras e ódio, de ideais e amores.
    É um livro que eu li há muitos anos atrás e que adorei reler. E que tenho a certeza irei ler novamente no futuro. Uma história imortal.

    abibliotecadajoao.blogspot.pt/2013/05/isabel-allende-casa-dos-espiritos.html

    Boas leituras,
    Maria João

     
    On 11 junho, 2013 Paula disse...

    Olá Maria João, de facto o livro está muito bem escrito e mostra-nos o Chile naquela época. O que me marcou pela negativa foi o facto de Isabel Allende nos mostrar os caminhos que alguns personagens vão tomar, castrando assim qualquer hipótese de ficarmos na expectativa...

     

    Paula e Vasco, desta vez não estou de acordo convosco. Compreendo a vossa opinião, que é tão válida como a minha ou mais, vinda de quem vem.
    No entanto...
    Na minha modesta opinião, estamos perante uma das melhores obras da literatura mundial. O fantástico envolvido numa ambiência humana; eis o segredo da magia de Allende. Só talvez Garcia-Marquez, em Cem Anos de Solidão, tenha conseguido superar a eficácia desta fórmula mágica.
    Por todo o livro está espalhado o perfume mágico desta humanidade sofrida, deste sentimento, desta ternura pelo ser humano na sua mais pungente condição de vítima do destino ou da tirania de quem o controla. Os personagens de Isabel Allende são seres de carne e osso que a magia da escrita transforma ora em escravos das tiranias ora em magos da fantasia mais pueril, fazendo da vida um sonho, único meio de escapar aos Pinochet’s que nos ensombram a existência.
    O fantástico é, na melhor linha da literatura sul-americana, povoado de um humor refinado, por vezes hilariante. A síntese entre a fantasia e o humor acaba por plasmar-se em episódios de verdadeira mestria literária, como aquele velho Pedro que afasta as formigas falando com elas, convidando-as a abandonar o local.
    Um dos aspetos mais curiosos e, ao mesmo tempo, mais geniais do livro é a forma como Isabel Allende enquadra os personagens reais no trama ficcional: o Poeta, nunca nomeado, é Pablo Neruda. Mas Allende nunca o revela; como se o seu nome fosse sagrado e, se aqui exposto, se misturasse com o mundo banal dos mortais. Da mesma forma, Salvador Allende, tio da autora, nunca é referido enquanto personagem histórico, pelo mesmo motivo: os heróis verdadeiros, os que lutaram e morreram pela liberdade e felicidade dos povos, estão acima de tudo isto; acima mesmo das mais pungentes obras de arte como é este livro.
    No entanto, é esta ligação da ficção à realidade que reforça a magnitude deste livro; o leitor sabe do que se está a falar. Ninguém é capaz de ler este livro sem lembrar as atrocidades do regime de Pinochet; e só assim o leitor se apercebe da dimensão do sofrimento daqueles personagens. Afinal, como diria Óscar Wilde, a realidade imitou a ficção…
    Esteban Trueba é um personagem criado por Isabel Allende de uma forma absolutamente genial; mais do que o latifundiário conservador que alimentou a tirania de Pinochet, ele representa o cidadão chileno que acabou enganado pela ilusão do poder. Lá como cá. Então como em todos os tempos. Talvez porque, como diria Saramago, o poder alimenta a cegueira. E toda uma família, todo um povo, todo um país, acabaram por cair na escuridão de uma tirania que roubou não só o alimento como a alma de uma nação.
    Neste contexto, o fantástico é a fuga; os cabelos verdes de Rosa e de Alba, as máquinas engenhosas do tio Marcos, as experiências mediúnicas de Clara, tudo são fugas; fugindo ao mundo real, ao mundo insano dos homens.
    Se excluirmos Jaime, podemos dizer que todas as “cargas positivas” do romance estão inscritas no universo feminino. É o elogio do poder das mulheres, as que trabalham e sofrem em nome de todos. Elas são a força da resistência, o poder superior. O próprio Jaime, o único personagem masculino positivo na história, detém algo de feminino: delicado, romântico mas decidido; possuído dessa força misteriosa que permite a sobrevivência dos grandes ideais; ele será o mártir da vida.
    Esteban Trueba, pelo contrário, encolhe enquanto envelhece: todo o simbolismo de um poder decrépito, tenaz mas inumano. Ele é a imagem do remorso; um homem cujos bons sentimentos são, também eles, assassinados pelo poder.
    O final do livro é uma verdadeira obra de arte: a catástrofe anuncia um futuro radioso, como se a destruição total fosse a única forma de renascer… a morte do Poeta é o anúncio dos novos tempos, de uma esperança sempre renovada e escrita pela mão do povo.

     
    On 11 junho, 2013 Argos disse...

    Olá!

    Estou um bocadinho atrasado, mas quase, quase a acabar ( confesso, andei a ler vários livros "ao mesmo tempo"...)mas por enquanto uma narrativa de brilhante consciência histórica e realismo mágico.Um país retratado nos diferentes personagens da família Trueba ou o inverso?

    Abraço grande

    P.S. Gosto muito da capa do "meu livro", diferente destas que aparecem aqui!



     
    On 11 junho, 2013 Vasco disse...

    De todo, Manuel! Pelo contrário, a tua opinião, assim como a da Maria João, é certamente mais válida do que a minha. O problema é meu pelo facto de não conseguir admirar, ou apreciar, a maior parte dos autores sul-americanos como vós. Podemos chamar-lhe gosto ou outra coisa qualquer. O que dizeis tem toda a lógica e está fundamentado na perfeição, mas a mim o livro não toca da mesma forma.
    Noutros livros poderemos eventualmente ter opiniões convergentes! :)

     
    On 12 junho, 2013 Paula disse...

    Manuel, mais uma vez um comentário brilhante que me deu a oportunidade de perceber mais alguns pontos desta obra :D
    É por isso que os teus comentários para mim são sempre uma referência.
    No entanto, mantenho o meu ponto de vista sobre a autora no que diz respeito a "avisar" demasiadas vezes o leitor sobre o que irá acontecer no futuro dos personagens.
    Um abraço e obrigado pela tua participação.

     
    On 12 junho, 2013 Paula disse...

    Argos, que livros andaste a ler???
    :) Depois diz-nos,
    No que respeita a esta leitura ficamos à espera da tua opinião ;)
    Abraço

     
    On 12 junho, 2013 Vasco disse...

    E concordo Paula. Brilhante foi o comentário do Manuel!

     

    Estou a ler, não para a leitura conjunto, mas por mero acaso e estou a gostar muito. Um ponto que alguns leitores acham negativo, eu aprecio: as dicas do futuro que a autora vai dando de cada personagem, não nos impedem de sonhar e imaginar, enquanto lemos para saber saber como vão chegar até concretizar...

     
    On 13 junho, 2013 Paula disse...

    Olá Maria João :)
    Se quiser deixar o seu comentário cá depois de o ler é muito bem vindo :D

     

    Li este livro quando o filme estava a ser filmado em Portugal, na minha terra. Gostei bastante. Gostei da escrita e das personagens. Do misticismo que envolvia algumas e da força que tinham. Gostei especialmente das personagens femininas e da sua determinação. É um livro que aconselho a leitura.
    Este foi o único livro que li da autora e não li mais nenhum por nenhuma razão especial. Ainda não aconteceu.

     

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