A Fenda, Doris Lessing

Opinião:
Doris Lessing apresenta-nos uma narrativa que teve como base um artigo científico que apontava a “probalidade de a estirpe humana básica e primordial ser feminina e de o aparecimento do homem ser mais tardio”. Assim, esta história mostra-nos como teria sido o nascimento da humanidade baseado naquela verdade.
Há a apresentação de um documento muito valioso, um documento que pode ser comparável à nossa bíblia e que explica a origem de tudo, é de salientar que também omite tudo o que a humanidade se envergonha. Neste documento estava o registo da origem das primeiras mulheres “Fendas”.
A fenda simboliza claramente a mulher. No início dos tempos, só havia fendas que engravidavam consoante o ciclo da lua e davam à luz outras fendas. Até que algo inesperado acontece – um dia, uma delas dá à luz um “monstro” (um bebé do sexo masculino). Até que estas mulheres se acostumem àquele novo ser, aquele que detém o tubo, que não é capaz de engravidar, mas que é indispensável para a procriação, algumas “eras” vão passar. Então, a necessidade, a curiosidade, vai originar a socialização entre ambos os sexos. Doris Lessing descreve toda esta relação de forma peculiar e muito própria.
Porém, há a realçar que apesar da autora enaltecer as mulheres como seres superiores, com poder de dar à luz e de colocar o homem sempre em segundo plano, no decorrer da história apercebemo-nos que estas são vãs, frias, vazias e sobretudo passivas! Não são seres detentores de pensamento (pelo menos no início dos tempos).
Os homens (os monstros, os tubos, os esguichos) um género cujo documento científico alega falta de solidez feminina é, na narrativa, um ser curioso, temo poder de desembaraço e do desenrasque.
O Homem apesar de rebaixado pela mulher é o que no fundo está mais desenvolvido enquanto ser pensante.
Sendo tal documento científico verídico, haviam os homens de dar sempre “a volta por cima”. Deste modo, podemos verificar que na nossa história da bíblia, o homem surge primeiro, a mulher depois. O Homem é visto como aquele que tem a força e a inteligência. A mulher durante décadas foi vista como um ser inferior (em certos países ainda assim é).
No registo “A Fenda”, a mulher nasce primeiro, deveria ter força, perspicácia, astúcia… mas não! É passiva, os homens são os mais fortes, aqueles que pensam…
Assim, acho que podemos concluir que na história da humanidade, quer nascessem primeiro os homens ou as mulheres, aqueles haviam sempre de fazer com que a sua masculinidade prevalece-se sobre a mulher… Será isto que nos tenta mostrar Doris Lessing? Foi assim que eu o entendi :D
Foi o primeiro livro que li da autora, gostei!
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Sinopse:
Imagine uma comunidade pré-histórica exclusivamente constituída por mulheres, que não conhecem homens nem deles têm necessidade, e que funciona de forma quase idílica. Imagine agora tudo o que poderá implicar para esta tribo o nascimento de uma criatura estranha: um bebé do sexo masculino. Esta é a premissa de que Doris Lessing parte para reflectir sobre um dos temas que mais a inspiraram ao longo da sua carreira: as relações entre ambos os sexos e como afectam toda a nossa vida. Com este livro, porém, Doris Lessing vai ainda mais longe, ao fazer também um retrato de uma beleza desconcertante da natureza simultaneamente transitória e imutável dos seres humanos, com os sentimentos de ambição, vulnerabilidade e incompletude que a caracterizam.

6 comentários:

    On 08 maio, 2012 Iceman disse...

    Olá Paula!

    Conforme disse ao Manuel, tenho este livro numa pilha algures lá em casa. A tua opinião está muito boa e, com a do Manuel, incentivaram-me a ler o livro ainda este ano.

     
    On 08 maio, 2012 Paula disse...

    Olá Iceman,
    E vão surgir mais duas no blogue Destante, a do Angelo e a da Ana C. Nunes. Esta foi uma leitura que eles realizaram para um clube de leitura Bertrand em Braga :) eu fiquei curiosa com a sinopse e acompanhei.
    Gostei muito. Agora espero pela tua opinião.

     

    Muito bem, Paula, explicas no teu comentário uma interpretação algo diferente da que eu fiz, mas é uma visão muito interessante.
    As questões com que terminas o teu texto foram alvo de discussão no nosso encontro da Bertrand e se lá tivesses estado terias certamente defendido a minha posição quando afirmei que esta obra vai muito além do feminismo.
    O que tu referes é, a meu ver, uma imagem tradicional do poder: o poder é marcadamente masculino; é um homem quem assume o poder. No entanto, as mulheres aceitam esse poder de forma bastante passiva.
    No entanto, Paula também é verdade que cada vez que o chefe tinha de decidir algo, ele pensava sempre na forma como a mulher-chefe o iria encarar...

     
    On 08 maio, 2012 Jojo disse...

    Olá Paula:)
    Eu tenho uma admiração enorme por Doris Lessing. Li O Sonho Mais Doce dela e fiquei maravilhada. É história lindíssima e nunca mais esquecerei Sylvia, uma das personagens.
    A Fenda está nos livros a ler mas,o tempo escasseia. Tantos livros para ler, tão pouco tempo.

     

    O único livro que li da autora foi "O Sonho Mais Doce" e gostei imenso.

     
    On 18 maio, 2012 Paula disse...

    Tons de Azul e Jojo,
    Também tenho "O Sonho mais doce" só não sei se ainda o leio este ano :P
    Espero gostar tanto ou mais do que este :)

     

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